Não é segredo que o maior dos problemas que assombra as cidades é a segregação das classes. Enquanto os pobres sofrem com a falta de estrutura e a marginalidade nos subúrbios, os ricos estão em condomínios que privatizam o espaço público. Acontece que a arquitetura, pela própria lógica do sistema capitalista, de elitização e afastamento da realidade urbana, está mais interessada em produzir a elitizada arquitetura de “grife”, destinada aos estratos sociais de alta renda. De jeito algum critico quem faz esse tipo de arquitetura, mas há muito mais no que se pensar.
Como arquitetos e urbanistas não podemos ficar de braços cruzados diante das políticas, feitas para a cidade dos ricos, que se preocupam em construir mais viadutos, vias expressas e túneis, investindo o dinheiro público para favorecer a minoria que possui carros individuais. A lógica das cidades vai muito além dos condomínios murados e equipados, que aos poucos vão acabando com as possibilidades de espaços públicos. Está em uma política de urbanismo que invista no transporte público de massa, no sistema de drenagem e esgoto, que controle regularize a ocupação das periferias, fazendo uma cidade para todos.
Olhe com atenção a capa da revista Veja, edição 1684, de 24 de janeiro de 2001:
Está claro que a cidade informal é posta como indesejável, um incômodo, como se a única opção fosse a exterminação da classe pobre, que ainda é taxada na capa como criminosos (pobreza e criminalidade estão naturalmente associadas na frase). Porém ninguém contestou a monstruosidade dessa capa, nem mesmo os arquitetos que estão obrigatoriamente inseridos nessa discussão.
A profissão de arquiteto não diz somente à faceta de autoria, mas principalmente a de ser socialmente transformadora, não importando se essa ação se dê dentro de pequenos escritórios ou no governo. Como política, a arquitetura deve abastecer-se dos desafios de integrar as periferias à cidade “que funciona”, com uma urbanização que estruture os sistemas de mobilidade, saneamento ambiental, educação e segurança, entre outros. Os subúrbios devem ser reequipados para conter escolas, centro de saúde, estações de ônibus, seja em prédios novos ou não. E se essa desigualdade deriva das políticas econômicas (com a histórica concentração de renda e segregação sócio-econômica), cabe aos arquitetos e urbanistas transpor os efeitos dessas práticas segregadoras e exclusivistas, concebendo uma política mais social.
Desta forma, que tal aproveitar o nosso tempo na universidade para criar perspectivas profissionais além do escritório, passando a atuar mais em ONGs, instituições públicas e governos? De fato as argumentações sobre política e arquitetura seriam bem mais instigantes e diversas.
